Plano Provo das Bicicletas faz 52 anos 

Hoje, 28 de julho, faz 52 anos que foi lançado nos Países Baixos o Plano das Bicicletas do grupo anarquista Provo, os provocantes, no ano de 1965. O panfleto Provokatie Nr. 5, “Provocação n.º 5”, anunciava o evento de lançamento:

 

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Tradução:

Plano Provo das Bicicletas

Basta com o asfáltico terror da classe média motorizada! Todo dia, as massas oferecem novas vítimas em sacrifício ao último patrão a quem se dobraram: a auto-ridade. O monóxido de carbono é seu incenso. O barulho de centenas de buzinas e motores é seu mantra sagrado. A visão de milhares de automóveis infecta ruas e canais.

O plano Provo das bicicletas nos libertará desse monstro. Provo lança a bicicleta branca de propriedade comum. A primeira bicicleta branca será apresentada ao público quarta-feira, 28 de julho, às três da tarde no Lieverdje, o monumento ao consumismo que nos torna escravos.

A bicicleta branca está sempre aberta. A bicicleta branca é o primeiro meio de transporte coletivo gratuito. A bicicleta branca é uma provocaçao contra a propriedade privada capitalista, porque a bicicleta branca é anarquista! A bicicleta branca está a disposição de quem dela necessite. Uma vez utilizada, nós a deixamos para o usuário seguinte. As bicicletas brancas aumentarão em número até que haja bicicletas o suficiente para todos, e o transporte branco fará desaparecer a ameaça automobilística. A bicicleta branca simboliza a simplicidade e higiene diante da cafonice e da sujeira do automóvel.

Uma bicicleta não é nada, mas já é alguma coisa.

 

As poucas bicicletas disponibilizadas pelo grupo foram confiscadas pela Prefeitura, que exigia que elas tivessem cadeados. Para contornar a situação, passaram a usar cadeados com senha, anotadas no quadro das bicicletas.

Na segunda edição da revista do grupo, Provo n.º 2, lançada em 17 de agosto de 1965, Luud Schimmelpennink, apresenta uma versão mais técnica do plano:

 

Plano das Bicicletas Brancas

Apesar de termos o burgomestre que Deus nos deu, milhares de funcionários científicos, mais capital, mais “Bem Comum” e mais “Democracia” do que nunca, temos que constatar que:

– Toneladas de gases venenosos são produzidos e difundidos no espaço vital de quase um milhão de habitantes.

– Ruas e calçadas desaparecem sob as “caixas de ostentação de status”.

– Centenas de mortos e milhares de feridos são sacrificados ao desleixo de uma minoria de motoristas.

– A cidade teve e continua a ter prejuízos irreparáveis.

É, portanto, absolutamente necessário que o centro de Amsterdam seja fechado ao tráfego de veículos. A eliminação do trânsito melhorará automaticamente o fluxo de transportes públicos em até 40%. Mantendo o mesmo número de bondes e funcionários da companhia de transportes, será possível poupar 2 milhões de florins por ano.

Propomos que a prefeitura adquira 20 mil bicicletas brancas ao ano, como integração do sistema público de transporte. Tais bicicletas brancas pertencerão a todos e a ninguém. Desse modo, o problema de trânsito no centro da cidade poderá ser resolvido ao cabo de poucos anos. Como primeiro passo para alcançar as cotas de 20 mil bicicletas brancas ao ano, Provo oferece aos voluntários a oportunidade de ter as próprias bicicletas pintadas de branco, apresentado-se à meia-noite em ponto diante da estátua do Moleque no Spui.

Os táxis e os meios de transporte de utilidade pública terão de funcionar com motores elétricos e alcançarão uma velocidade máxima de 40 quilômetros por hora.

Os motoristas deverão deixar o próprio carro em casa e ir à cidade de trem, ou estacionar em espaços especialmente construídos nos limites da cidade, tomando em seguida um meio de transporte público.

O AUTOMÓVEL é um meio de transporte que só se pode admitir em zonas escassamente habitadas. Os automóveis são meios de transporte perigosos e totalmente inapropiados para a cidade. Existem meios melhores e tecnicamente mais sofisticados para nos deslocarmos de uma cidade para outra. O automóvel representa uma solução ULTRAPASSADA para esse tipo de utilização.

Não há mais tempo para políticas titubeantes e velhos expedientes. Aquilo de que necessitamos nesse momento é uma solução radical.

NÃO AO TRÂNSITO MOTORIZADO

SIM ÀS BICICLETAS BRANCAS

 

Cartazes publicitários da indústria do automóvel eram pichados com a letra K de kanker, câncer. Havia ainda o Plano da Vítima Branca: quem fosse responsável pela morte de outra pessoa em uma colisão de automóvel, deveria construir um memorial de conscientização, cavando a silhueta da vítima no asfalto e cobrindo com argamassa branca.

Os Provos também realizavam bicicletadas e ações diversas, happenings, haviam vários Planos Brancos, não apenas relacionados ao trânsito. Do manifesto programático:

 

PROVO é uma folha mensal para anarquistas, provos, beatniks, noctâmbulos, amoladores, malandros, simples simoníacos estilistas, magos, pacifistas, comedores de batatinhas fritas, charlatões, filósofos, portadores de germes, moços das estribarias reais, exibicionistas, vegeterianos, sindicalistas, papais-noéis, professores da maternal, agitadores, piromaníacos, assistentes do assistente, gente que se coça e sifilíticos, polícia secreta e toda a ralé deste tipo.

PROVO é alguma coisa contra o capitalismo, o comunismo, o fascismo, a burocracia, o militarismo, o profissionalismo, o dogmatismo e o autoritarismo.

PROVO deve escolher entre uma resistência desesperada e uma extinção submissa.

PROVO incita à resistência onde quer que seja possível.

PROVO tem consciência de que no final perderá, mas não pode deixar escapar a ocasião de cumprir ao menos uma quinquagésima e sincera tentativa de provocar a sociedade.

PROVO considera a anarquia como uma fonte de inspiração para a resistência.

PROVO quer devolver vida à anarquia e ensiná-la aos jovens.

PROVO É UMA IMAGEM.

 

Fontes: Timenco (2008); Guarnaccia (2001).

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