Manifesto dos Invisíveis – Curitiba

Este manifesto vem a público após o atropelamento do ciclista Rafael de Almeida Oliveira por um veículo cujo motorista diz “não ter visto a vítima”. Chega de invisibilidade. A versão abaixo foi copiada e remixada a partir do manifesto dos invisíveis de São Paulo.

Motorista, o que você faria se dissessem que você só pode dirigir em algumas vias especiais, porque seu carro não possui airbags? E que, onde elas não existissem, você não poderia transitar?

Para nós, cidadãos e cidadãs que utilizamos a bicicleta como meio de transporte, é esse o sentimento ao ouvir que “só é seguro pedalar em Curitiba nas ciclovias”, ou que “a  bicicleta atrapalha o trânsito”. Precisamos pedalar pela cidade toda. E já pedalamos! Mas o que fazer quando precisarmos  passar por alguma via sem ciclovia? Carregar a bicicleta nas costas até a próxima ciclovia? Empurrá-la pela calçada? Ciclovia é só uma das possibilidades de infra-estrutura existentes para o uso da bicicleta. Nosso sistema viário, assim como a cidade, foi pensado para os carros particulares e, quando não ignora, coloca em segundo plano os ônibus,  pedestres e ciclistas. Não precisamos somente de ciclovias para pedalar, assim como carros e caminhões não precisam ser separados. Precisamos também de ciclofaixas, e onde elas não existirem ou estiverem deterioradas, o ciclista tem o direito legal de pedalar por praticamente todas as vias, e ainda tem a preferência garantida pelo Código de Trânsito Brasileiro sobre todos os  veículos motorizados.

A evolução do ciclismo como transporte é marca de cidadania na Europa e de funcionalidade na China. Já temos, mesmo na América do Sul, um grande exemplo de solução criativa: Bogotá.

Então não clamamos por ciclovias. Clamamos por  respeito. Respeito às leis de trânsito, que colocam em primeiro plano o respeito à  vida. As ruas são públicas e devem ser compartilhadas entre todos os  veículos, como manda a lei e reza o bom senso. Porém, muitas pessoas não se arriscam a pedalar por medo da atitude violenta de alguns  motoristas. Estes motoristas felizmente são minoria, mas uma minoria que  assusta e agride.

Curitiba ainda possui uma situação peculiar, que são as famosas “calçadovias”, que levam motoristas a gritar para ciclistas saírem da pista de rolamento e irem para seu devido lugar, o qual acaba por configurar-se como lugar algum. Os automóveis não nos respeitam na pista, os pedestres não nos respeitam na calçada/ciclovia e as poucas ciclovias de verdade que existem muitas vezes estão em condições tão precárias que não é possível pedalar continuamente em sequer 50 metros de sua extensão.

Por isso muito mais que ciclovias, precisamos de mais bicicletários espalhados pela cidade e de uma campanha de educação no trânsito acompanhada de um trabalho de sinalização das vias. Se faz extremamente necessário informar e conscientizar motoristas sobre o fato de que ciclistas podem e devem circular nas ruas da nossa cidade. Isso está na Lei.

“Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.”

Mas nos cursos de habilitação não há sequer um parágrafo sobre proteger o ciclista, sobre o veículo maior sempre zelar pelo menor. Eventualmente cita-se a legislação a ser decorada, sem explicá-la adequadamente. E a sinalização, quando existe, proíbe a  bicicleta; nunca comunica os motoristas sobre o compartilhamento da via, regulamenta seu uso ou indica caminhos alternativos para o ciclista. A ausência de sinalização deseduca os motoristas porque não legitima a presença da bicicleta nas vias públicas.

A insistência em afirmar que as ruas serão seguras para as bicicletas somente quando houver milhares de quilômetros de ciclovias parece a desculpa usada por muitos motoristas para não deixar o carro em casa. “Só mudarei meus hábitos quando tiver  metrô na porta de casa”, enquanto continuam a congestionar e poluir o  espaço público, esperando que outros resolvam seus problemas, em vez de tomar a iniciativa para construir uma solução.

Não podemos e não vamos esperar.  Precisamos usar nossas bicicletas já, dentro da lei e com segurança. Vamos desde já contribuir para melhorar a qualidade de vida da nossa  cidade. Vamos liberar espaços no trânsito e não poluir o ar. Vamos fazer  bem para a saúde (de todos) e compartilhar, com os que ainda não experimentaram, o prazer de pedalar.

Preferimos crer que podemos fazer nossa cidade mais humana do que acreditar que a solução dos nossos problemas seja  alimentar a segregação com ciclovias. Existem alternativas mais rápidas  e soluções que serão benéficas a todos, se pudermos nos unir para construirmos juntos uma cidade mais humana.

A rua é de todos. A cidade também.

E este manifesto assinamos nós, que também somos o trânsito:

Fabianne Balvedi (fabs)
Gabriel Augusto Gonçalves Sobral
Jorge Brand (Goura)
Cintia Ribas
André Luiz de Almeida (ciclista urbano cwb)
Flávio Krüger
Alberto A. Rocha
Evandro Fernando Schulz
Vitoria Mario
Vinicius Massuchetto
Luis Patricio
Vinicius Brand
Norma Müller
Rafael Buratto
Daniel Junghans
Michele Micheletto
Rosangela Araújo
Rui Marcelo Suttil de Oliveira
Vinicius de Figueiredo
Valdilena Rammé
André Belletti Romero
Janaina Fellini
Silvia Neves Mayer
Antonio Miranda
Silvia Shimakura
Tiago Bindewald
Tiê Passos
Patrícia Valverde
Iris Cavassin Lopes
Rodolfo Lucchin (Dox)
Yasmim Reck
André de Macedo Duarte
Eduardo Cordeiro Uhlmann
Maria Baptista
Liliane Vicenzi
Paulo de Oliveira Neto
Alessandra Lorena da Silva
Ramiro Batista da Luz
Oscar Neto
Jake Dobkin
Marlon Martins
Daniel S M Oliveira
Xênia Mello
Ricardo Alves de Oliveira
Renato Machnievscz
José Carlos Assunção Belotto
Pedro Leonardo Cardozo de Medeiros
Guilherme Sant’ana
Daniel Ikenaga
Divo Maia
Andreza G. Lucas
Tais da Silva Ribeiro
Lyncoln Reis
João Paulo Taborda (Djão)
Samuel Barrales (Samucat)
Márcia Flores
Alvaro Komiya
Josue Valerio
André Drabeski
Beto Varella
Renata Mele
Yuri Damasceno Schultz
Diogo Marques
Leandro Kruszielski
Klaus Lütke Elbers
Rodrigo Camargo de A Pinto
Pedro Loyola
Silvia Caroline Zyla Santos
Pablo Sandro Carvalho Santos
Nicole Jareki
Robson Furquim

Assine você também manifestando seu desejo por visibilidade nos comentários abaixo. Nós iremos adicionar os nomes à medida que forem sendo revelados.

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