Quem declara guerra entregando uma flor?

Daqui a pouco a revista eletrônica Fantástico, da Rede Globo de Televisão, exibirá uma reportagem com o título “Fantástico pedala pelas ruas de SP e mostra guerra entre ciclistas e motoristas”. Aí eu pergunto: como assim guerra, caras-pálidas? A quem interessa chamar isso de guerra?

Sejamos sinceros, se formos olhar pela ótica de um conflito, isso está mais para um massacre, pois somente um dos lados tem poder de fogo. Ou vocês já viram algum ciclista atropelar e matar um motorista apenas com sua bicicleta?

Pela paz no trânsito, não entrem nessa guerra! Não se deixem levar pela mídia!

O link abaixo é o que gostaríamos que se mostrasse, mas infelizmente, estas pautas parecem não interessar por não se caracterizarem sensacionalistas o suficiente para este tipo de programa:

http://vadebike.org/2011/03/como-foi-a-manifestacao-de-apoio-aos-ciclistas-de-porto-alegre/

Nós não queremos guerra! Seríamos uns imbecis se partíssemos para a guerra justamente por sabermos ser o lado mais fraco! A guerra interessa a quem não quer compartilhar as ruas com as bicicletas, pois desta maneira continuarão a justificar seu massacre dizendo que lugar de bicicleta não é na rua. Mesmo nós tendo a lei a nosso favor. Guerras são estados de exceção,  onde as leis são relativizadas. Por isso mesmo nós não queremos estas exceções, queremos apenas o que nos é de direito!

Seguem abaixo dois textos redigidos por cicloativistas indignados com esta forçação de barra de se chamar de guerra o simples exercício de nosso direito básico de utilizar as ruas para nos locomover de bicicleta:

#naofoiacidente #naoehguerra

O Movimento Cicloativista vem, através desta carta, comentar o erro do programa Fantástico na chamada para a matéria sobre a convivência (ou não convivência) entre ciclistas, motociclistas e motoristas no trânsito de São Paulo. A chamada faz referência a uma “guerra entre ciclistas e motoristas” nas ruas. Guerra é o conflito entre duas facções rivais para disputar um espaço. Numa guerra, ambos os lados disputam com suas forças, de forma a tentar vencer o outro lado. Quando um dos lados não possui forças para guerrear, opta pela não violência e, mesmo assim, o outro lado opta pelo embate, isso é conhecido por massacre. O que temos no Tibet, por exemplo, não é guerra. É massacre.

Em cidades europeias cuja experiência com o aumento do número de ciclistas é mais antiga, as mortes são próximas de zero. Quer dizer, o debate não está em torno de uma discussão entre a “viabilidade de convivência”, e sim no que fazer para tornar o trânsito mais humano e respeitoso.

O Ciclista tem direito Constitucional de utilizar a bicicleta com segurança, conforme diz o Código de Trânsito Brasileiro – CTB. Inicialmente discordamos que há uma guerra entre ciclistas, pedestres e motoristas. O que há é o extermínio de pedestres e ciclistas (vide o n° de atropelamentos e vítimas mortais). Somente “um lado” ataca, os carros. Não há dados oficiais de ciclistas e pedestres que, atacando um carro, conseguiram matar o motorista.

Esperamos que a matéria a ser veiculada no programa Fantástico hoje, no dia 11/03, tenha um teor mais favorável à convivência no trânsito, e não ao embate. Todos nós, usuários do trânsito, precisamos de uma mídia que colabore para a redução da violência nas ruas, para a consciência de que todos que estão ali, indo e vindo de suas casas, são pessoas, e que tem suas histórias.

 

#naofoiacidente #naoehguerra

Ciclistas são da Paz, só os que matam fazem guerra.

Muito nos agrada a preocupação e o interesse da Rede Globo, emissora de televisão de maior audiência no Brasil, em pautar a questão da mobilidade nos grandes centros urbanos, tratando com especial interesse as modalidades alternativas de transporte – em especial as bicicletas.

Atenta às demandas sociais e aos problemas que afligem milhões de brasileiros a mídia tem desempenhado um papel fundamental na construção de um país melhor e mais cidadão. Contudo, assistindo as chamadas da programação, vimos que o Fantástico de hoje (11/03/2012), veiculará a reportagem: Fantástico pedala pelas ruas de SP e mostra guerra entre ciclistas e motoristas; ficamos deveras contrariados com a expressão, guerra, uma vez que não é assim que percebemos e vivenciamos a situação.

Primeiro que não há como um cidadão, armado de uma indefesa bicicleta por entre as pernas, declarar guerra contra uma tonelada, motorizada, veloz  e que mata -cada dia mais- conforme as estatísticas oficiais. É desproporcional a comparação entre os veículos, carro versus bicicleta, o mínimo que pode acontecer, numa disputa entre estes dois é um massacre, não uma guerra.

Um outro aspecto fundamental é que os usuários da bicicleta entendem ser esta uma opção  de transporte que pode ser utilizada e, como tal, merece sim espaço, tanto quanto os outros modais. Já os motoristas, por estarem inseridos numa cultura onde a primazia do uso dos espaços públicos de circulação é monopólio dos veículos automotores, só conseguem enxergar as alternativas modais que almejem o compartilhamento das vias – a bicicleta, por exemplo – como uma intrusa, alguém que está invadindo o espaço que é deles, exclusivamente deles.

Embora o conteúdo da chamada, aponte para uma reportagem em que será evidenciada a fragilidade dos ciclistas, “…é possível uma convivência pacífica, ou os ciclistas vão continuar morrendo no trânsito?”, o termo guerra, não é o mais apropriado para anunciar uma disputa tão desproporcional como esta.

Pode parecer casuísmo ou algo que o valha, mas nós que pedalamos pelas ruas das grandes metrópoles, sentimos na pele – a cada “educativa” fina, a cada buzinada, a cada tombo (quando somos lançados contra o meio-fio), a cada fechada- o comportamento agressivo e desumano da maioria dos motoristas e a falta de respeito com a Vida a que somos submetidos diariamente. Este tipo de relação pode ter várias denominações, menos a de uma guerra.

Nós não queremos guerra, só queremos compartilhar o espaço que é de todos, viver, não poluir e chegar.

#naofoiacidente #naoehguerra