Emancipação feminina a pedaladas

No Dia Internacional da Mulher de 2011, publiquei neste blog a reprodução de um artigo em espanhol que celebrava a emancipação da mulher através das quilometragens de conhecimentos adquiridos pelas incessantes pedaladas em cima de suas bicicletas no percurso da história de nossa humanidade.

Naquele mesmo dia, o Daniel Martineschen comunicou nos comentários que havia traduzido o texto e o enviou para minha caixa postal. Porém o redemoinho do cotidiano me capturou e eu acabei postergando tanto a publicação dessa tradução que acabei resolvendo reserva-la para o 8 de março do ano seguinte, ou seja, hoje! 😉

Recordar é viver!

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Emancipação feminina a pedaladas

É recomendável usar um vestido de lã, mesmo no verão, para andar de bicicleta“. É com esse conselho para as mulheres que começa um artigo sobre indumentária feminina e bicicleta da Ladies Standar Magazine de abril de 1894. O veículo, muito apropriado para elas, exigia um certo decoro e segurança (imagine-se pedalar como a Bruxa Má do Oeste com vestidos até os tornozelos). Era necessário cumprir uma série de normas estéticas e de circulação. A roupa foi a primeira coisa que preocupou as mulheres ciclistas (a elas ou à sociedade que via no uso da bicicleta uma possível falta de moralidade). Porém, a bicicleta não somente se popularizou entre as mulheres estadunidenses, nos fins do século XIX, mas sim se converteu em um objeto de culto pelo seu poder de emancipação.

A bicicleta foi um dos primeiros veículos aos quais as mulheres tiveram acesso. Poder se deslocar sem um acompanhante ou sem o controle do condutor da carruagem lhes trouxe o controle de seus movimentos, algo impensável até então. As sufragistas, essas senhoras burguesas que lutavam em prol do voto feminino, fizeram das bicicletas o emblema de sua liberdade. “Máquinas libertadoras” era como as chamavam. E, de tanto pedalar, tornou-se evidente que um vestido até os tornozelos incomodava à condutora. Então começaram a surgir vozes que pediam uma roupa mais de acordo com a bicicleta e com o incipiente século XX. A reforma têxtil vitoriana, que rompia com os corpetes e anágas, teve uma certa conexao com a bicicleta.

A autonomia para se deslocar e a escolha livre de vestimenta, sem se submeter à crítica social leonina da época vitoriana, foram dois momentos básicos da emancipação feminina. Em pleno século XXI as mulheres ainda não conseguiram a igualdade. Em alguns países, elas gozam direitos semelhantes aos dos homens. De facto, e com base nas quantidades de mulheres presentes em empresas, governos ou juntas de acionistas, elas seguem em segundo plano. Em alguns países estão em situação pior que as sufragistas, mas a bicicleta segue sendo um veículo muito feminino. Na Ásia, meninas a usam diariamente para ir à escola, ou senhoras a usam para ir ao mercado. Na África do Sul ela tem uma grande aceitação. Na América Latina, uma centena de mulheres celebrou no sábado o dia da mulher em pedais*, e na Europa o movimento Cycle Chic** se nutre de meninas (e também de meninos) que brilham como modelos desde o selim.

Bicicleta e mulher vão de mão em mão: por seu poder libertador, pela autonomia que proporcionam e pelo relaxamento do passeio, os pedais são só prazer. Se não são, que se diga isso a esta jovem holandesa que vai trabalhar de bici. Creio que, de maneira igualitária, deveriam fazer outro vídeo com um homem de bicicleta e desfrutando o passeio.

Feliz dia da mulher!

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Fonte: http://blogs.elpais.com/love-bicis/2011/03/d%C3%ADa-de-la-mujer-pedaleante.html

** Curitiba também tem seu movimento Cycle Chic: http://curitibacyclechic.blogspot.com/

*** A autora deste post deseja de coração que mais mulheres integrem o movimento da bicicletada e se habilitem a escrever neste blog, cuja maioria dos autores são homens… 😦 http://raios-x.com/bicicletadacuritiba/authors