No Meio do Caminho

O texto é longo mas merece ser lido até o seu final.

“No meio do caminho”
Carlos Drummond de Andrade
“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”

Terumi Oshiro
Domingo, final de tarde, após um passeio no MON (Museu Oscar Niermeyer, ou Museu do Olho, como é mais conhecido), Vitor Klitzki, de 17 anos, decidiu esticar o lazer, e “pegar um cineminha”. Aparentemente, o percurso que Vitor teria fazer para chegar até o Shopping Muller – local onde está localizado o cinema -, era simples. Andando a pé, um pedestre gasta em média dez minutos. O adolescente deixou o museu acompanhado de três jovens, eu (autora), André Belletti e Euzania Gomes.
Ao sairmos do museu pela rampa principal, caminhando pela calçada, na primeira quadra do trajeto, demos de cara com uma fileira de barras de ferro, de aproximadamente 70 cm, fincadas verticalmente no chão. Provavelmente, elas foram implantadas para impedir que os motoristas “espertinhos” invadam a calçada, e cortem caminho para entrar ou sair da instituição. Inconformada com a situação de Vitor, que é cadeirante, decidi assumir a guia da cadeira.

“Você ainda não viu nada!”, exclama o adolescente, dirigindo a palavra para mim (autora).

A saída que encontramos para desviar dos obstáculos, foi andar por um trecho no estacionamento do museu. Para isso, tivemos que nos arriscar na rua, entre os carros que deixavam o local. Ao sairmos do estacionamento, seguimos pela calçada na Rua Marechal Hermes, sentido centro. Após caminharmos o equivalente a uma quadra, optamos por cortar caminho em uma trilha – construída em cima do gramado – próximo ao prédio da Secretária de Turismo do Paraná. Vitor que anteriormente, havia nos narrado os capotes espetaculares – que levou nos últimos dois anos, ao ter de se adaptar a cadeira de rodas -, frustra-se, por não poder se aventurar na pequena rampa.

“Ahaa, se vocês não estivessem aqui… Eu ia descer isso, numa pancada só!”, afirma o adolescente.

“tinha uma pedra”

Na realidade, Vitor começou a se irritar conosco, desde o passeio no museu, por não podermos acompanhá-lo nas suas aventuras sob as quatro rodas. Diante das galerias vazias, próximo a entrada do museu, ele expressou sua impaciência com as seguintes palavras.

“Eu não posso ver um corredor vazio assim. Sabe por quê?”
“Não.”, respondo eu.
“A minha vontade, e de sair correndo daqui até ali.”, o personagem indica com a mão direita, uma distância de quase 10 metros.

Voltando ao ponto de partida desta matéria, o trânsito na região do Centro Cívico… Na rotatória, cruzamento das ruas Marechal Hermes e Deputado Mário de Barros fomos obrigados a pensar em uma saída para atravessarmos em segurança. A nossa sorte, é que na frente da rotatória, existe uma bifurcação – triângulo de concreto, construído sobre o afasto, com rampas laterais, ligadas as faixas de pedestre – que serve para auxiliar o trânsito. Apesar de todo esse aparato técnico, confesso que não me senti segura neste trecho em nenhum momento. Primeiro, porque passamos uns 5 minutos esperando os carros cruzarem a rotatória – todos em alta velocidade.
Ao percebemos uma folga nas quatro vias, o suficiente para atravessarmos, decidimos atravessar correndo. No meio fio da bifurcação, nos deparamos com outro obstáculo. As rodas da frente da cadeira emperraram e não conseguíamos sair do lugar. Foi um dos momentos mais tensos da rota. Para completar, um motorista distraído, decidiu atravessar à rotatória correndo. Nessa hora, só me recordo do Vitor tentando assumir a direção da cadeira, agachado com as mãos nas rodas da frente, e da Euzania gritando:

“Vai, vai… Empurra a cadeira que nos dois damos cobertura para vocês.”

Na hora do desespero, tento inclinar a cadeira, e encosto o joelho direito no apoio de costas da cadeira. Mas, Vitor com um grito me alerta do incomodo. Pois ele já passou por uma cirurgia na coluna. Sem saber como reagir, decido seguir as instruções da jovem, e sigo empurrando a cadeira. Até que, em questão de segundos, as rodas voltaram ao normal, e os nossos amigos não precisaram se arriscar na frente dos carros. Mais a diante, já recuperados do susto, Euzania narra o desespero:

“Eu pensei que a gente ia ser atropelada pelos carros. Eles não respeitam os pedestres, parece que vão passar em cima da gente.”

Em frente à Praça Rio Iguaçu, diante do ponto de ônibus, desanimado com os obstáculos já superados, Vitor sugere que a turma desista de seguir o percurso “caminhando”, e use uma condução para chegar até o destino. Porém, após uma rápida avaliação da proposta, acabamos optando por seguir da mesma forma. Uma vez que André conduzia uma bicicleta, e não poderia nos acompanhar na viagem. Sem contar o tempo que levaríamos esperando o ônibus passar.

“no meio do caminho tinha uma pedra”

Mal caminhamos 50 metros, e encontramos o próximo desafio a ser superado. Próximo ao Palácio Iguaçu, diante de outra bifurcação, descobrimos que teríamos de atravessar para o outro lado da rua. Nessa hora, olho para os outros integrantes da turma, e a reação era a mesma. Todos estampavam um leve sorriso no rosto. Enquanto, no fundo, estavam indignados por dentro. Nesta hora, creio que todos nós sentimos um descaso, por parte do planejamento urbano, com os portadores de necessidades especiais. A nossa intenção, era de seguirmos reto, pelo mesmo lado da calçada. Mas, fomos obrigados a atravessar a rua. Pois, estávamos em uma parte rebaixada da calçada, cortada por uma pequena via que não tinha ligação com a próxima calçada, por falta de uma obra de rebaixamento no meio fio. Somente a calçada do outro lado da rua, estava adaptada (sinalizada) para o trânsito de cadeirantes.
Na calçada, em frente à Assembléia Legislativa do Paraná, seguimos os quatro rindo e fazendo piada da situação. Revoltados, já não tínhamos ideia do que nos esperava nas próximas quadras. Talvez, procurando nos conformar, Vitor só nos fazia a seguinte provocação.

“Éeeee. Você ainda só vão andar esse trecho comigo. E eu que tenho que andar todos os dias nessas calçadas “bonitas” de Curitiba? Ainda dizem que é a Cidade Modelo… Não sei onde. Quem diz isso, não anda de cadeira de rodas.”

Ainda na Avenida Cândido de Abreu, após andarmos um quarteirão, na calçada de frente da Assembléia Legislativa, diante da segunda rotatória – que fica na esquina da prefeitura Municipal de Curitiba – descobrimos mais uma falha na calçada. O meio fio deste lado não contém nenhuma rampa de acessibilidade. Tivemos que retornar uns 30 metros e atravessar a rua, e nos dirigir para a calçada do lado da Prefeitura.
O trajeto final, da Prefeitura até o Shopping Muller, digamos até que foi tranquilo, em se tratando de inclinações nos meios fios. Somente na esquina da Rua Senador Xavier da Silva, passamos um pequeno aperto por conta da ausência de rampa no meio fio. Porém, rapidamente, conseguimos solucionar o problema, ao utilizarmos o quebra mola (lombada) como ponte. Tirando o incomodo, de que pararmos o trânsito por alguns segundos, e a cara feia dos motoristas – pois, eles tiveram que nos esperar atravessar -, essa foi a travessia mais confortável que realizamos durante o trajeto.
Para compensar as dificuldades com a ausência de inclinações – no meio fio, do começo da matéria -, neste último trecho, enfrentamos os desníveis das calçadas. A maioria das calçadas da região foram construídas em declives para facilitar a entrada e saída dos automóveis nas garagens. Com isso, era difícil de conduzir a cadeira em linha reta. Volta e meia, o eixo dela se voltava para o lado mais baixo da calçada. Nessas horas, só dava a Euzania tentando nos ajudar a guiar a cadeira. Ela do nosso lado direito, puxava a cadeira pelo braço.
Para completar, nesse trecho tivemos que superar os famosos buracos das calçadas de Curitiba. Se como pedestre já sentimos na pele, a dificuldade de andar nessas vias, por conta dos buracos e das pedras (que compõem as calçadas) soltas que encontramos ao longo do caminho. Termino esta matéria, complementando a última provocação de Vitor: imagine-se no lugar de um cadeirante, que necessita se locomover nessas calçadas, e volta e meia, se vê diante das adversidades expressadas na poesia de Carlos Drummond de Andrade, “No meio do Caminho”.

Original da Terumi no Geração Especial.

Esse lindo texto da Terumi, que nos faz sentir e praticamente vivenciar as dificuldades de um amigo em transitar umas poucas quadras pelas ruas de Curitiba, nos faz também refletir: por que a cidade não cuida equitativamente de todos os seus filhos?

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