Reflexões

A Bicicletada vem sendo sutilmente martelada há algum tempo. Apesar de eventuais problemas localizados, contudo, vale a pena ser um agente da mudança. Não que se espere realmente mudar algo, a não ser a si próprio. Ser um agente da própria mudança vale a pena. Isso sempre acaba se estendendo além de si e inspirando outros. Outros de quem se cuida e por quem se é cuidado, na solidariedade com o desconhecido que partilha o mesmo meio de deslocamento. Então, vale a pena refletir sobre a abordagem teórica de Odin Ogun, abaixo. Vale a pena ser um participante da história, não um mero escravo do carro.

é na paisagem, no pano de fundo, que a bicicletada de são paulo (e por extensão a de salvador, de florianópolis, de curitiba, de brasília) vai diferir das bicicletadas de outros países. enquanto lá pode ser a recuperação do espaço público, aqui é a construção do mesmo.

e claro, como bem nos diz heráclito, já há mais de dois milênios, o mesmo homem não cruza duas vezes o mesmo rio.

nãohá como nós contruirmos noções de espaço público nos mesmos termos de como se fez na américa do norte ou na europa. a própria noção de mobilidade difere: nossa herança escravagista faz com que muitos ainda tenham horror a fazer qualquer esforço físico – coisa de escravo, as mãos e pés do seu senhor – nos faz enfrentar o obstáculo, a dificuldade em mostrar que a bicicleta é sim veículo viável (coisa que a frança, p.ex., com o tour de france e paris-brest-paris já demonstrou a si própria há pelo menos um século). aqui ainda somos taxados de loucos quando fazemos cicloturismo, enquanto os alemães gastam por ano mais dinheiro nessa modalidade específica de turismo do que o brasil arrecada em todas as formas de turismo. não tivemos a etapa dos bike-couriers (novidade por aqui), pois passamos do office-boy que andava de bumba direto par ao motoboy, motorizado, pulando a etapa da bicicleta.

por outro lado, esse mundo novo, confuso, de fronteiras não muito claras, de misturas, descrito por deleuze sob as bençãos de foucault como sociedade do controle, esse mundo das celebrações, dos espetáculos públicos mediando as relações descrito por guy debord (em “a sociedade do espetáculo”), essa sociedade cuja instituição é imaginária, descrita por castoriadis, apaga progressivamente as diferenças de nação, as substitui por diferenças de classe mas que não são mais as classes descritas pelo pensamento marxista do século XIX.

o europeu ainda tem dificuldade de entender espaços simultâneos, mas os brasileiros não: entedemos perfeitamente quando dizemos que quem trabalha o último andar do banco, na diretoria, está no primeiro mundo e o porteiro do mesmo prédio vive no terceiro mundo. em berlin e paris condomínios fechados são novidade, aqui não, assim como subúrbios pobres e explosivos.

a gigantesca sociedade global favelizada mistura o pobre e o rico, coisa que pode ainda ser novidade em londres, mas pra nós é a regra, no carnaval, na praia, sem deixar de lado as assimetrias e conflitos, emuito antes peo contrário, muitas vezes acirrando-os.

então, possuímos um imenso know-how de subversão dos mecanismos de controle: é o famoso jeitinho brasileiro.

pedalar em são paulo é o jeitinho de se deslocar com alegria: com diversão entre as pernas, muito mais rápido e menos estressante do que preso dentro de um carro. e também de ocupar as ruas e transformá-la em espaço público de celebração por algumas horas como fizemos ontem em diversos locais – não só em são paulo, em outras cidades também: recebi um telefonema direto da bicicletada de floripa ontem à noite mesmo, enquanto pedalava, e hoje assiti a um vídeo da bicicletada de salvador.

é interessante perceber que os estrangeiros estão com uma visão diferente do que anossa sobre nós mesmos. essa semana assisti a uma entrevista de slavoj zizek na qual ele dizia que antonio negri o alertou para observar o brasil pois aqui estavam ocorrendo coisas muito, muito interessantes.

as nossas bicicletadas são uma delas: uma multidão gigantesca e totalmente horizontal que simplesmente se reúne e festeja a cidade que no mais das vezes lhe é hostil. uma explosão de sorrisos. uma outra leitura do mundo.

aquilo que explodiu até violentamente em maio de 68 em diversos locais domundo agora se manifesta novamente de modo suave, brincalhão, gozador, irreverente, e desesperadoramente anárquico diante das “otoridades”.

é, PM, acostume-se com a ideia. o mundo novo se aproxima. hoje os vídeos estão a rodar pela internet, as fotos, os depoimentos sobre o desespero dos policiais em achar “o chefe”. é, não tem chefe, é espontâneo, é não-hierárquico, é horizontal, é colaborativo. e isso é novo nesse país, é novo no mundo. e o novo, que é sempre saudado pelos progressistas é o horror dos conservadores, das mentes embutidas.

é, são paulo, quem diria que as bicicletas tão mudando a cara da cidade….

e aqui precisamos voltar a spinoza. na verdade, a spinoza e maquiavel. maquiavel demonstra que a ação pública está além da moralidade religiosa. e portanto há espaço para a construção de uma outra forma de se viver o mundo. mas maquiavel ainda não coloca o poder nas mãos do povo.

quem o faz é spinoza. spinoza não tira o poder das mãos da divindade, mas os coloca nas nossas mãos, quando afirma: “vive-se em deus”. ora, o poder nos é imanente, não transcendente. emana do povo. da massa, da multidão.

foucault refina essa visão do poder ao demonstrar que o poder não é uma coisa, mas uma relação. o poder se manifesta nas relações.

ora, e o que vimos ontem? uma forma diferente de relação entre as pessoas e a cidade. é essa forma diferente de se relacionar com o mundo que se apresenta desde os anos 60 de diversas formas, mas sempre de forma episódica, mas que ontem apresentou-se de forma tão natural….

a bicicletada foi surpreendente pois não teve absolutamente nada de surpreendente. apenas pedalamos, distribuímos alguns panfletos, conversamos, rimos e só. nada além disso mas tudo tão…. zen!

um novo paradigma de ocupação das ruas se instaura. esse é o futuro que atropela o passado e confunde os acomodados. dêem passagem. a bike quer passar. e vai.

p.s. esse é um blog de e sobre bicicletas. pra discutir ciência política, filosofia política, há outros sites e fóruns mais adequados. esse texto é dirigido a ciclistas, não a estudantes de filosofia ou ciência política. mas se vc estuda filosifa e/ou ciência política, e gostou do texto misturando spinoza às bicicletas, arranje uma bike e apareça na próxima bicicletada: última sexta-feira do mês, a partir das 18 hs, na praça do ciclista em são paulo e em outros locais do brasil. vá até http://www.bicicletada.org e ache sua cidade.

Fonte: http://asbicicletas.wordpress.com/2011/01/29/bicicletada-festa-ou-protesto-e-mais-alem-um-novo-paradigma-de-ocupacao-das-ruas/

Pois é. Fica complicado querer manter essa coisa de direita e de esquerda. Será que vale a pena insistir muito nisso?

O pessoal de São Francisco – EUA está com uma proposta de profunda reflexão sobre a Bicicletada. Que tal participar dessa reflexão, dentro da nossa própria realidade?

Anúncios