A experiência de andar de ônibus

Publicado na Gazeta do Povo:

Enviado por José Carlos Fernandes, 15/12/2010 às 08:00

Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo

Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo / O Expresso já foi nosso signo de civilidade. Aviso aos navegantes: nao o abandonem.
O Expresso já foi nosso signo de civilidade. Aviso aos navegantes: nao o abandonem.

Para mim, 2010 vai ser acima de tudo o ano em que vendi meu carro e decidir me locomover de ônibus. O início das atividades de coletivo se deu em fevereiro. O “despacho” do automóvel, em julho. De lá para cá, perdi a conta do número de pessoas que me perguntaram quando é que vou comprar um novo. O mesmo tanto, presumo, fez apostas no meu arrependimento.
Digo sempre o mesmo: “está valendo a pena”. E que pode ser mesmo que não seja para sempre. O mais importante foi ter descoberto ser possível viver sem carro. Não digo isso por bom-mocismo nem nada. Uma colega de trabalho, dia desses, chegou a dizer que essa história de se alardear feliz “a pé” é Poliana demais para o gosto dela. Rimos. Valeu pela sinceridade. Mas não acho que seja ingenuidade. Tampouco é mentira ou gênero.

Os motivos que levaram ao novo estilo podem ser citados em ordem decrescente. O primeiro é que vida de jornalista se resume a falar no impacto do automóvel na cidade, danos ao meio ambiente, prejuízos à relação com o espaço urbano. Bom, com perdão ao pedantismo aparente, achei que deveria fazer a minha parte. Ou pelo menos tentar.
É quando entra a segunda razão. Meus percursos dentro de Curitiba não são longos, mas são no plural. Faço Água Verde – Juvevê /Cabral – Centro – Água Verde e Água Verde – Prado Velho – Centro – Água Verde. Isso implica frequentar quatro linhas diferentes e gastar R$ 6,60 por dia. Por causa dos compromissos, um dos percursos, na sexta-feira, tem de ser feito de táxi. Em miúdos, eu achava impossível dar conta das obrigações usando ônibus, até porque carrego uma papelada danada, por ossos do ofício. E seu eu estivesse errado?
Pois estava. Pela manhã, em 90% dos casos, os ônibus – pelo menos os das linhas que utilizo – são bastante pontuais. Me eduquei para não vacilar naqueles 5 minutos, permitidos pelo carro, e chego sempre na hora. De quebra, ganhei ao longo do dia 40 minutos de leitura a bordo – a retina não descola. E aí vem outra verdade. Desculpe repetir, mas pelo menos no Juvevê-Água Verde, Interbairros I, Raquel Prado-PUC e Pinheirinho-Santa Cândida os coletivos na ficam lotados o tempo todo. Dá para sacar um jornal, revista ou livro e ler, sem apertos.

Até agora não fiz grande economia. Para quem mora nas imediações do Centro, o transporte é caro. Na ponta do lápis, era mais em conta pagar gasolina e estacionamento. Lucro, só ano que vem, quando pouparei o IPVS e o seguro, que já tinha desembolsado em 2010. Que vantagem, então, Maria leva? A leitura, a observação da cidade do ponto de vista do ônibus, novas formas de convivência, a disciplina de horário, que me permite a economia do tempo. Por incrível que pareça.

Sei que não é muito convincente – quem sou eu diante da indústria automobilística e suas promessas de felicidade. No fundo, tenho cá para mim que a gente só anda de ônibus, mesmo, por ideologia. E fico me perguntando como convencer mais gente a deixar o carro e bater ponto no horário em que o amarelinho, o vermelhão e os prateados passam. Alguém pode dizer que levei sorte com as linhas. Concordo. Mas sorte mesmo foi ter desconfiado das minhas certezas e ter experimentado.

Turbulências
O alegre retorno às linhas de ônibus já me credencia para colocar a boca no trombone. Eu posso. A gente encontra motoristas legais, atenciosos e ouso afirmar que, pelo menos na minha experiência, são maioria. Mas tem boi na linha. Tem condutor que, visivelmente, tem o passageiro em baixa conta e comete um daqueles famosos preconceitos às avessas. A maior tristeza parece ser a nossa presença no ponto, principalmente se o ponto é perto do sinaleiro. Ele quer passar no verde, mas tem de parar para o cidadão. Faz cara de bofe – um horror. Acho que essa história do troco – uma barbaridade, contra as leis do trânsito e da natureza – não justifica.

Há os que não nos deixam na área coberta em dias chuva. Os que façam cavalinhos nas poças de água. Os que ficam dando soquinhos no freio, pondo velhinhos a perigo. Os que tomam um bom dia por um insulto à mãe. Em miúdos, para diminuir o rosário de pequenas queixas no tribunal das causas impossíveis, mal não faria se as companhias de ônibus dessem noções de boa educação e cidadania a seus funcionários. E que antes de premiar os que cumprem horário, que verifiquem como é que tratam dos seus passageiros.

No mais, vai tudo bem. Meu abraço aos bons motoristas e à turma do ônibus. E para quem passa ao lado, sozinho na sua máquina. Não sei quem é. Mas aposto que boa parte poderia estar a bordo das “jardineiras”. É melhor do que parece. A gente sempre chega. Eis uma ideologia para viver.

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