Menos Um Carro

Transcrevendo trechos da entrevista de Jeff Rubin ao DN , apontada pelo blog português Menos Um Carro:

O que aconteceu em 2008 vai voltar a repetir-se?

Antes da crise da Grécia, o barril estava a ser comprado a 85 dólares. E repare que a maioria das economias consumidoras de petróleo não está nas mesmas condições que estava antes de começar a recessão. O petróleo até pode voltar aos 40 dólares, isto se continuarmos em recessão, não digo que não. O que digo é que não podemos sobreviver como economia global se o preço do petróleo voltar aos três dígitos. E, quando isso acontece, a distância custa dinheiro. O modelo de economia global deixa de fazer sentido.

Quando é que isso vai acontecer?

Está a acontecer enquanto falamos. O petróleo esteve agora a custar 85 dólares por barril. Há três anos, esse preço seria um recorde inacreditável e agora é o que se paga quando metade do mundo está em recessão. Vamos chegar aos 150 dólares por barril. E não me parece que a economia esteja mais apta para lidar com esses preços do que estava em 2008. É por isso que acho que temos de mudar. Não faz sentido irmos buscar tudo à Índia ou à China porque os salários são mais baixos. O custo de importação vai ser mais caro. Aquilo que poupamos em custos de pessoal gastamos para trazer os produtos.

Vamos ter de nos habituar a outra forma de vida?

Sim, em tudo. No que comemos, onde trabalhamos, onde vivemos, como gerimos o nosso negócio, que tipo de trabalhos temos. Essas serão as mudanças que nos permitirão adaptar a preços de três dígitos. Mas não vamos deixar de comer. O problema é que nos Estados Unidos, Canadá ou Europa Ocidental metade dos terrenos agrícolas são hoje sítios pavimentados. As mesmas forças económicas que acabaram com as fábricas e as levaram para a China vão ter de reverter isso. Rendibilizar novamente os locais não porque o governo diz mas porque os preços do petróleo o dizem.

E acha que as pessoas estão preparadas para esta reviravolta?

A única vez em que concordei com George W. Bush foi quando ele disse “estamos viciados no petróleo”. E estava 100% certo. Mas ninguém está mais viciado do que os norte-americanos. Contudo, é uma mensagem que as pessoas não querem ouvir. Preferimos fingir que conseguimos encontrar novas fontes de energia porque não queremos cortar no nosso consumo. Mas a chave não é encontrar uma forma de arranjar gasolina mais barata, a chave aqui é sair da estrada. Nisso acho que os europeus estão mais habituados. Pelo menos têm sistemas de transporte muito mais desenvolvidos.

Este é um problema comum a todo o mundo?

Sim. As pessoas têm de perceber que, num mundo onde as reservas de petróleo já não estão a crescer há cinco anos, conduzir, por exemplo, torna-se uma atitude de elevados gastos. Se vai haver 40 milhões de novos condutores na China e Índia nos próximos 10 anos, porque são estas as previsões, outros 40 milhões vão ter de sair da estrada. Isso vai acontecer nos EUA, Japão, Canadá, Europa Ocidental.

Que vantagens vamos tirar daí?

Vamos redescobrir muitos trabalhos que julgávamos terem acabado para sempre, principalmente de manufactura. As zonas verdes estão a voltar e, quer queiramos quer não, a nova economia vai ser muito mais verde do que a antiga. Preços de três dígitos vão fazer mais para diminuir a pegada carbónica do que mil acordos de Quioto. Vamos deixar de escolher.

Alguns quererão dizer talvez que o Brasil está protegido por dispor do etanol e biocombustíveis, mas esquecem que a produção agrícola é tremendamente dependente do petróleo.

Vamos pedalar!

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