Sem sair de casa – Coluna Ambiente por Inteiro

Recebo essa coluna por email. Dessa vez (26/Fev) Efraim Rodrigues aborda o interessante tema do impacto ambiental dessa nova tendência de fuga dos centros urbanos  atrás do “paraíso” e o consequente uso intenso do carro para os deslocamentos.

Flávio Krüger

O corretor de imóveis vende a imagem que você passará a ser ecológico se viver fora da cidade. Vai acordar com os passarinhos, terá árvores em seu jardim. Aliás, carneiros e cabras pastarão solenes nele.

Mesmo que tudo aconteça assim, seu impacto ambiental será muito maior em um terreno grande do que em um apartamento na cidade.

Pense grande, pense no número 6.805.000.000. Esta é a quantidade de pessoas no mundo hoje. Pegue a área de seu paraíso ecológico, 500 m2 ou 1000 m2, multiplique por este número e veja o que seria do mundo se todos dispusessem desta área. Mas a coisa não para aí. O “paraíso ecológico” exige usar o carro para tudo. Acabou o fósforo ! carro. Estou sem sal ! carro. Escola, aula de balé, cinema a noite. Carro, carro e carro.

O prejuízo não é só ambiental. É também psicológico. Ao vestir esta neo-armadura de metal, vidro e plástico nos tornamos estrangeiros em nosso próprio mundo. Não conhecemos o vizinho porque nunca passamos andando na porta da casa dele, quando ele também estaria saindo a pé.

Há urbanistas estudando isto. O arquiteto Peter Calthorpe criou o conceito de “andabilidade” a partir da sua experiência em uma casa-barco em Sausalito, Califórnia (Calthorpe é também especialista em causar inveja em pobres mortais como eu).

Os leitores assíduos desta coluna irão lembrar-se do Shopping Center no meio do nada que virou um centro comercial para onde vão milhares de carros de manhã e saem todos a noite. Ninguém vive lá. Tyson’s Corner tem andabilidade zero. É o lugar que só existe por causa do carro. Tyson’s Corner tem mais lugares para carros que empregos.

Há alguns anos, mencionei este problema e recebi um telefonema de um importante jornalista que mora em uma chácara, cria porcos e faz até a própria lingüiça. É muito bom consumir produtos locais, que viajaram menos e com isto consumiram menos recursos. É igualmente bom dar os restos de comida para animais. No entanto, se formos todos morar em chácaras, precisaríamos de um outro país para elas.

E vivendo em cidades, como fazem hoje 70% dos brasileiros, precisaremos de cidades melhores. A agricultura deve entrar cidade adentro, produzindo aquilo que estraga rápido e é mais caro, hortaliças principalmente. Estas hortaliças estariam muito bem se fossem nutridas com restos de alimentos compostados e humificados, fechando um ciclo de matéria e melhorando as cidades.

Voce não precisa mudar-se para reduzir sua pegada ecológica. Ao contrário, há muito a fazer dentro de nossas próprias cidades.

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Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim@efraim.com.br) é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Nos fins de semana ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico e a coletar água da chuva.

Veja colunas anteriores em http://www.efraim.com.br/Blog/Blogger.aspx

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