Eu, automóvel

G IDEIAS

VIDA SOBRE RODAS

Eu, automóvel

Símbolo de liberdade e independência exportado pelos EUA ao mundo, o carro se transformou, no Brasil, em sinônimo de status e fonte de problemas incontornáveis

Publicado em 27/02/2010 | IRINÊO BAPTISTA NETTO

Reportagem completa na Gazeta.

———————————————————————————————-

Cinema, jazz e automóveis são traços da cultura dos Estados Unidos. O documentário América, realizado em 1989 por João Moreira Salles para a finada TV Manchete, argumenta que o carro carrega consigo a imagem de liberdade e de independência. Essas associações extrapolaram as fronteiras do país e hoje parecem integrar o DNA da humanidade. Ou de uma parte significativa dela, na qual aparece o Brasil.

Automóvel é um veículo capaz de se mover sozinho, sem a ajuda de animais ou coisa que o valha. Pare para analisar a palavra, ela sugere mobilidade e autossuficiência. Mover-se por si só é o que define um automóvel, mas é também um desejo atrelado ao que há de mais elementar para o ser humano. Essa sempre foi e continua sendo uma maneira eficiente de fazer propaganda – o carro dará a você a liberdade que merece.

No Brasil, por motivos que esta reportagem quer elucidar, os automóveis representam algo diferente, que pouco tem a ver com liberdade ou independência. Algo relacionado a status.

Possuir

O indigente genial que Joseph Mitchell perfilou em O Segredo de Joe Gould (Companhia das Letras) não tinha nada, vivia nas ruas e dizia que, ao possuir qualquer coisa, a coisa também possui você. Ele falava de um lugar para morar, mas isso faz sentido em relação a carros pelo tempo e pelo dinheiro que podem consumir.

Chega a ser irônico. Alguém compra um carro almejando liberdade e vai parar num engarrafamento. Ou deseja cair na estrada, mas não pode ignorar os pedágios nem os limites de velocidade. É claro que carros têm vantagens – mobilidade é uma delas –, porém, os argumentos procuram mostrar que eles também, assim como o transporte público ou a bicicleta, têm suas restrições.

Comprar um carro não é adquirir liberdade para fazer com ele o que quiser. O privado não pode prevalecer sobre o público. Se os motoristas aceitassem esse fato, talvez o trânsito fosse menos selvagem.

Agora, o brasileiro se atira em prestações com uma disposição inédita em dez anos – segundo matéria publicada pela Gazeta do Povo na última segunda-feira – e 90% dos automóveis vendidos no país são parcelados.

Numa relação de nações com a quantidade de veículos per capita (incluindo ônibus, caminhões e motos), o Brasil é o 67.º, com 133 veículos por 1.000 habitantes. Os Estados Unidos lideram a tabela com 765.

Esse é um número que o mercado automotivo gosta de explorar. As pessoas compram carros porque ainda não têm um. O que explica o aumento impressionante para os padrões mundiais das vendas na China, na Índia, na Rússia e no Brasil.

Para o filósofo suíço Alain de Botton, mais do que desejar o que não possuem, as pessoas almejam aquilo que as outras têm. O escritor é de um didatismo atordoante em Desejo de Status (Rocco). De acordo com De Botton, falta de amor e esnobismo são duas das causas que levam alguém a querer ascender socialmente.

Numa equação que envolve poder aquisitivo baixo e preços altos, o automóvel deixa de ser uma forma de locomoção para se tornar um índice.

Vaidade

O advogado Marcelo Araújo, professor de Direito de Trânsito e proprietário apaixonado de um Peugeot conversível, diz que os carros podem ser uma demonstração de êxito profissional. “É vaidade no sentido positivo. A pessoa não pode carregar uma casa consigo. Já um carro, pode”, diz.

O advogado divide os proprietários de automóveis em dois tipos, os práticos e os emocionais. Integrantes do primeiro grupo compram fazendo cálculos de desvalorização, querem perder pouco dinheiro e não se importam com adereços – vidros elétricos e afins são supérfluos. Entre os emocionais, há a identificação com o carro, o carinho por uma determinada marca ou modelo e o dinheiro não é um fator determinante.

Aqueles que desejam status estão entre os emocionais.

“Não sei quem criou essa lógica, mas carro simboliza sucesso”, diz Darcy Boz Jr., gerente da Divesa, loja da Mercedes-Benz em Curitiba. Seria “um fruto do trabalho” e um meio de demonstrar para si mesmo e para as pessoas próximas que está se saindo bem na profissão.

“É uma questão cultural”, afirma Boz Jr., fazendo uma comparação com os EUA, onde um veículo é proporcionalmente mais barato do que no Brasil e não passa de um bem de consumo, tanto quanto uma televisão o é.

Uma rede de postos de gasolina fez uma série de comerciais falando que é apaixonada por carro, “como todo brasileiro”. Pode-se especular que essa relação com o carro teria origem no interesse do país pelo automobilismo, turbinado pelos pilotos Emerson Fittipaldi e Ayrton Senna. Mas não. A “paixão” é anterior a isso e está ligada a uma questão na origem de todos os problemas brasileiros. “Todos” foi a palavra usada por J. Pedro Corrêa, consultor empresarial que trabalhou 15 anos com a Volvo e há décadas estuda o trânsito.

Para Corrêa, a influência do carro no imaginário brasileiro resulta do despreparo educacional somado à habilidade da propaganda encomendada pela indústria automotiva.

Carcaça

A falta de educação não age sozinha e o fascínio por carros também é alimentado pela qualidade do transporte coletivo. “Se ele fosse bom, talvez as pessoas não dessem tanta importância ao carro”, diz Corrêa. Porque os ônibus não são “decentes”, porque não há metrô nem outras alternativas, a população sonha em comprar qualquer carcaça com quatro rodas e um motor que a poupe da experiência de ser espremida antes e depois do trabalho.

Ser refém do trânsito ou de um financiamento a perder de vista é, enfim, uma conquista para quem se sente subjugado pelo transporte público.

Corrêa tem 64 anos e lembra que, nos anos 1960, o carro era uma “oportunidade fantástica” para se exibir. Ele seduzia mulheres e atraía para o proprietário a admiração (ou a inveja) alheia. Mesmo desgastada pelo tempo, essa percepção deve embalar os sonhos de jovens hoje e amanhã.

De Botton afirma que o desejo de sucesso na hierarquia social não se concentra nos bens a serem adquiridos e, sim, “na quantidade de amor que recebemos como consequência de nosso status elevado”. O amor a que se refere é “uma espécie de respeito, a sensibilidade de uma pessoa à existência da outra”. “Nossa presença é notada, nosso nome registrado, nossas opiniões são ouvidas, nossos fracassos tratados com indulgência e nossas necessidades atendidas”, escreve o filósofo.

Círculo

Hoje, a sociedade tem mais acesso à informação – o que não significa que seja bem informada – e o carro se popularizou de certa forma. A distância entre os que têm e os que não têm um veículo diminuiu. Na opinião do especialista em trânsito Alan Cannell, as facilidades criadas para a compra de um automóvel dificultam a manutenção do transporte coletivo e do sistema viário. Um círculo vicioso se cria: as pessoas não querem andar de ônibus porque eles são ruins e eles não melhoram porque ninguém gosta de usá-los. (O círculo vicioso ignora a multidão que não tem escolha.) Simultaneamente, o tráfego de carros aumenta sem qualquer tipo de controle ou de plano para dar conta da frota que cresce sem parar.

“O que me preocupa não é o fato de as coisas estarem difíceis, é que não há qualquer perspectiva de melhora”, diz Corrêa. Também jornalista, ele trabalhou durante anos na Suíça e gosta de contar a história do dia em que entrevistou o diretor da associação de produtores de leite e derivados na capital do país, Berna. A fama planetária do chocolate suíço é a medida da importância do homem entrevistado por Corrêa.

Depois da conversa, eles visitariam uma fábrica. Na saída da associação, o brasileiro perguntou que carro eles usariam e o suíço respondeu:

“Eu sou um homem moderno, não tenho carro”.

O ano era 1972.

Anúncios