As favelas do século 21

Em entrevista ao Spiegel, o arquiteto alemão Albert Speer Jr. diz que a torre Burj Khalifa, de Dubai, é um projeto de pura vaidade e argumenta que o emirado é um exemplo de planejamento urbano fracassado.

  • KARIM SAHIB/AP - 04.jan.2010Com mais de 800 metros de altura, o Burj Dubai tem 160 andares e ultrapassa em centenas de metros o prédio que até então era o mais alto do mundo, o Taipei 101, em Taiwan, que mede 508 metros. Segundo a administração do edifício, foram gastos cerca de US$ 1,5 bilhão na construção do edifício que é considerado o maior do mundo

Spiegel: O Burj Khalifa acaba de ser inaugurado em Dubai. Com 828 metros, é atualmente o prédio mais alto do mundo. O que o senhor pensa da torre?
Speer:
É inspirado no projeto de Mile High Illinois, um arranha-céu projetado pelo arquiteto americano Frank Lloyd Wright nos anos 50. Ele deveria ter 1.609 metros de altura. Ou seja, fundamentalmente, os prédios como o Burj Khalifa não são invenções do século 21. Esses projetos já existiam antes, apenas não eram tecnicamente possíveis. Hoje, temos os meios de construir essas torres. Contudo, isso não significa que é inteligente construí-las. É um projeto de pura vaidade.

Spiegel: Ele é uma forma dos indivíduos garantirem seu legado?
Speer:
No caso do Burj Khalifa, com certeza. Talvez valha a pena. Talvez haja pessoas suficientes no mundo que considerem que um apartamento em tal prédio seja a cereja do sundae em seu estilo de vida luxuoso. Mas isso não tem nada a ver com a normalidade ou um estilo de vida sustentável. Quando se constrói uma cidade -ao menos eu, como alemão, penso assim – se constrói para os próximos 200 anos e não para os próximos 10. Tome por exemplo a cidade alemã de Freiburg -o projeto da cidade é o mesmo do que no ano 1000. Mas em Dubai, é provável que a maioria dos prédios tenha que ser derrubada daqui a pouco tempo.

Spiegel: Por quê?
Speer:
Estou convencido que as favelas do século 21, até certo ponto, estão sendo construídas ali. Dubai tem dois lados. Por um lado, é o Estado do Golfo que não possui petróleo, mas que ainda assim conseguiu ter seu nome no mapa em um espaço de 20 anos. A arquitetura extraordinária fez uma contribuição significativa para isso. Contudo, por outro lado, nem todos os prédios são construídos com a mesma qualidade que o Burj Khalifa -nem de longe. Muitos foram construídos rapidamente e de forma barata por especuladores e agora estão vazios.

Spiegel: É um caso de planejamento urbano fracassado?
Speer:
As cidades são feitas para as pessoas. As cidades têm que ser usadas. A qualidade do espaço urbano é absolutamente decisiva nesse respeito. Muitos dos prédios construídos em Dubai estão próximos demais e não foram planejados ou construídos em padrões adequados em termos de qualidade de vida. Acredito que Dubai ficou intoxicada com a ideia de que tudo é possível. O colapso desse sistema demonstra que essa não era a direção certa.

Tradução: Deborah Weinberg

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