Décadence avec élégance

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A laranjada mecânica da coisa era a seguinte: uma montadora francesa, por exemplo, queria explorar a mão-de-obra qualificada mas aviltada e ociosa do Leste. Atrativos: achatamento de custos de produção, downsizing, fuga de centros sindicais fortes, precarização livre do trabalho, possibilidade de superexploração, reserva de novos mercados estratégicos, estímulo à coesão social pelo trabalho, difusão do etos capitalista num meio supostamente “comunista”, aproveitamento de incentivos fiscais, alfandegários e financeiros, tanto do país de origem quanto do país hóspede da planta fabril, etc.

Mais: as montadoras, as empresas varejistas e industriais e a banca fizeram esforços junto a seus governos de origem, na totalidade de corte neoliberal, para financiar infra-estrutura naqueles países. Os governos achavam que pingava o maná dos céus, “Deus finalmente olhou para nós”, dinheiro farto e a baixo custo, assistência técnica embutida nos financiamentos, estímulo à adoção de novíssimas tecnologias, cursos grátis de MBA, difusão maciça de empreendedorismo em quatro lições, etc. Desde que as contrapartidas fossem satisfeitas.

Que contrapartidas? Ora, o de sempre. Privatização quase geral dos serviços públicos, desde o ensino em todos os níveis, a saúde, os transportes públicos, o setor viário, saneamento básico, água, eletricidade e energia (petróleo, gás, hídricas, eólica), banca, etc. Paralelo à destruição material e simbólica da vasta estatuária stalinista, foram construídas estradas com financiamento público, a pedido das montadoras, com o objetivo de estimular o mercado do transporte individual por automóvel.

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Fonte: Diário Gauche

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