Cultura da Bicicleta em Portland

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O inverno aqui em Portland é uma miséria: são, praticamente, 5 meses de escuridão, chuva e frio. Sair de casa é um esforço e, se seu principal meio de transporte é a bicicleta, você deve ter um espírito de guerreiro para enfrentar a estação.
Na necessidade de reanimar os espíritos, Zoobomb, a gangue de bicicletas infantis de que faço parte, criou, há 5 anos, o Mini Bike Winter, um final de semana em fevereiro em que convidamos outras gangues e ciclistas de todos os lugares para participarem de corridas, competições e festividades. O de 2009 aconteceu há dois finais de semana, e, somente agora me recuperei o suficiente para poder escrever e descrever este evento anárquico sobre duas rodas.
Tudo começou na sexta-feira, com uma festa chamada “Light Bar”. É um projeto do Mykle Hansen, Zoobomber e novelista. Ele construiu um domo geodésico no quintal da casa dele, encheu de luz e música,  com a intenção de combater a depressão causada pela falta de luz solar. À meia-noite todos saímos para uma bicicletada que chamamos de Midnight Mystery Ride. Esse passeio ocorre toda segunda sexa-feira do mês: apenas uma pessoa (o líder do mês) sabe qual será o destino, e pedalamos pelas ruas de Portland, até chegarmos a um parque, fábrica abandonada, praia fluvial, trilho de trem, onde fazemos fogueira e bebemos até o amanhecer (ou a polícia chegar).
O dia seguinte começou com um brunch, na casa de um outro amigo, Pink Kyle. Não sei exatamente quantas, mas algo em torno de 200 pessoas apareceram. Era o dia de São Valentim, ou dia dos namorados aqui. Ao invés de romance, todos estavam preparados para batalha. É porque uma das maiores atrações/atividades do final de semana estava pra acontecer naquela tarde – a batalha das carruagens. Enquanto uns cozinhavam no quintal, outros se preparavam colocando suas armaduras e pinturas de guerra, ou apenas admiravam as obras de engenharia ali presentes: bicicletas modificadas e suas carruagens. Depois do café da manhã, pedalamos em massa, num desfile surreal de bicicletas altas, minúsculas, monociclos e choppers até o Laurelhurst Park, onde as primeiras competições começaram – as corridas de carruagem. As garruages que me refiro são carretas, estilo Ben Hur, guiadas por bicicletas. O(s) passageiro(s) é o gladiador. Depois das corridas ao redor do lago do parque, seguimos até um estacionamento de caminhões abandonado. O local era um segredo para a maioria, mas eu sabia e tinha ido lá duas noites antes para pintar um mural em homenagem ao Cody, um amigo e guerreiro que morreu no ano passado num incêndio. Aquela era a arena para o principal evento – a batalha pós-apocalíptica das carruagens. O objetivo é ser a última máquina rodando e as regras são mínimas. As armas são inspecionadas e a batalha começa. É uma carnificina memorável. O público pode participar atirando objetos, como pneus de carro, latas de cerveja, fogos de artifício… A tensão é enorme, com muita agressividade, mas sem ódio. Todos querem destruir as bicicletas e carruagens que as pessoas colocaram o maior esforço para construir, mas ninguém quer deixar ninguém mais ferido do que alguns cortes e hematomas.
Na mesma noite, uma super festa. Bandas, DJs, desfile de moda que qualquer um pode participar, e as pessoas podem mostrar as roupas e acessórios que elas criam, leilões de arte e apresentações de dança. Temos, em Portland, dois grupos de dança com mini bikes, um feminino e um masculino. Esses grupos inspiraram pessoas a criarem outros grupos em outras cidades, e eles também se apresentam nesses eventos em Portland.
No domingo, os jogos olímpicos, que consistem em diversas competições: “derby” (os participantes pedalam em círculos e o último a colocar o pé no chão é o vencedor); “jousting” (duelos com lança, estilo medieval, mas em bicicletas – altas ou minis); corrida com cerveja (quem consegue beber uma lata de cerveja e chegar na linha de chegada primeiro); entre outros. Tembém foi o momento do Cupcake Challenge, um desafio que o nosso amigo Cupcake criou há quatro anos, pra ver quem tem coragem de pedalar sua bicicleta sobre uma rampa e cair no rio gelado (e tóxico).
À noite é o tradicional Zoobomb. Todo domingo descemos as ladeiras de Portland em velocidade total, em bicicletas de criança. Neste ano eu e meu irmão Diogo empatamos em segundo lugar na categoria bicicleta normal. Há quatro anos eu tirei primeiro lugar, quando peguei 55 km/h, completamente pelado.
Todas essas atividades unem e fortalecem nossa comunidade. Apesar de a maioria dos eventos serem competitivos, ganhar é o de menos. O fato de todos participarem para fazer um evento como esse acontecer é o que realmente importa. O esforço coletivo, completamente descentralizado e desafiador (além de a maioria das atividades serem completamente ilegais) é o que nos inspira.

Os links abaixo são das fotos e vídeos do evento, e também de um artigo que um jornalista publicou:

http://thisjustin.bicycling.com/2009/02/what-the-freak.html

http://photos.breakawayind.net/mbw09

http://www.flickr.com/photos/21556345@N00/sets/72157614136846856/

http://video.bicycling.com/video/Valentines-Day-Massacre-Chariot

http://video.bicycling.com/video/Minibike-Winter-VI

http://www.youtube.com/watch?v=URWydW2BrKE&eurl=http://zoobomb.net/forums/index.php?topic=19899.0

E este é o mural que eu pintei:

http://flickr.com/photos/41639453@N00/3295732674/

http://flickr.com/photos/carol_carolina/3293568065/

Abraços,

Tiago

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