Diário de um adicto de carros

Carrólatras Anônimos

Hoje amanheceu chovendo muito.

Obrigado Senhor,

Por mais um dia sem carro.

Obrigado porque me permitiste vencer todas as tentações.
Todas as vezes que cedi arrependi-me, mas nunca no caso contrário. Os documentos no bolso, a chave pendurada no cós, o carro na garagem, a chuva copiosa. Soube que teve até granizo, mas no momento em que eu saía, ela, que já tinha parado, voltou num ritmo abundante mas encarável.

Obrigado porque consegui pedalar na chuva bem devagar com o abrigo de motociclista recortado em alguns pontos, indo pela canaleta dos ônibus expressos, sem precisar praticar uma condução veicular para a qual o esforço e o risco seriam maiores.

Obrigado por me permitir perceber que sou perfeitamente capaz de viver sem o carro, o “amigo” (ou a “família devoradora de recursos”) que tem as suas qualidades, sem dúvida, mas que pode ser cheio de falsidades e provocar danos, assim como o álcool e a nicotina, ligados ao sedentarismo, à poluição do ar, à poluição pelo barulho, à privatização do espaço público, ao pecado capital da preguiça, à morte direta e indireta não apenas dos seus usuários, mas da população como um todo. E que assim posso usá-lo apenas quando houver muita, mas muita precisão mesmo – embora a cada dia eu perceba que ele pode ser bem menos necessário do que eu pensava, sem precisar odiá-lo por falhas que são
minhas.

Obrigado por me permitir compreender e ter compaixão pelos carrodependentes, que sucumbem inconscientemente a essa doença, fomentada ao extremo pela indústria capitalista irresponsável. Espero poder ajudar-lhes pelo esclarecimento
e pelo exemplo, para que possam reconectar-se consigo mesmos e terem mais alegrias nas suas vidas, como eu as tenho na hora de ir trabalhar.

Que eles aprendam, nos congestionamentos cada vez maiores, que a bicicleta é o veículo mais racional nos deslocamentos urbanos, assim como os transportes coletivos, e deixem de acreditar em fantasias mirabolantes de liberdade motorizada.

Obrigado por permitir que estas palavras venham do coração, porque vividas realmente, e não sejam “só da boca para fora”.

Obrigado por mais 24 horas sem carro (não considere o pequeno trajeto do posto de lavagem até em casa, por favor).

Só por hoje. Mais um dia sem carro. Um carro a menos. Obrigado.

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