Lei do mais forte

 

(Más) notícias de Curitiba, na Gazeta do Povo de hoje:

Ao entregar ontem seu Corsa Sedã, ano 2003, nas mãos de um oficial de Justiça como pagamento de uma ação judicial em que passou da condição de autor para réu, o administrador H.S., de 49 anos, deu fim a um triste episódio. Há 15 anos ele sofreu um atropelamento na Rua Saint Hilaire (via rápida bairro–centro), entre as avenidas Iguaçu e Getúlio Vargas, no bairro da Água Verde, em Curitiba. Com o acidente, teve fratura exposta na perna direita, passou um ano sem andar e dois sem poder trabalhar. Como o dono do Gol que o atropelou demorou para acionar o seguro, H.S. resolveu entrar na Justiça e amargou a decisão de ter sido considerado culpado pelo seu próprio atropelamento. A condenação foi pagar cerca de R$ 12 mil referentes às custas processuais e pagamento das perícias feitas.

O mais curioso é que na ação não foi levado em consideração se o pedestre transitava conforme as normas do Código de Trânsito Brasileiro. O administrador foi considerado culpado por não apresentar testemunhas. “Me sinto injustiçado”, afirma, indignado. “Como é que iria pensar em conseguir testemunha se no momento do atropelamento eu estava com fratura exposta e sendo atendido pelo Siate?” Já o proprietário do Gol – uma locadora de veículos – levou três testemunhas que, segundo o pedestre, nem sequer tiveram seu reconhecimento pedido diante do juiz.

O administrador foi atropelado em 1º de agosto de 1993, quando ao sair de um almoço da casa de amigos resolveu comprar um jornal do outro lado da rua. No término da travessia, foi atingido pelo Gol. “Não havia faixa de pedestres e eu tomei todos os cuidados para atravessar. (…)

 

De fato, ninguém mandou sair sem sua armadura blindada e motorizada de 2 toneladas. Pagou por esse erro com uma fratura exposta, 1 ano sem poder andar e mais 2 sem poder trabalhar, desgaste físico e emocional no desenrolar do processo e agora vai pagar mais ainda, em dinheiro. A lição que fica é: atropele antes que seja atropelado.

Parabéns à justiça. Conseguiram oficializar o que na prática todo mundo já sabia: as pessoas (o nome que costumávamos dar para “pedestres”) não tem mais vez. A cidade está oficialmente entregue aos carros.

Esse é o mundo que queremos para os nossos filhos – e é mesmo, sem ironia, basta observar os comentários da notícia. Ruas seguras, livres dos perigosíssimos pedestres, onde os carros, muitos carros, possam desenvolver velocidades anti-humanas para se chocarem uns contra os outros ou então ficar deliciosamente parados em engarrafamentos quilométricos. Não é a visão do paraíso?

Parabéns, Curitiba, capital sorriso (amarelo e banguela).

 

Notícia completa na Gazeta do Povo

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