
Quando o poder público se omite, quem pode evitar que as pessoas procurem resolver os problemas por sua própria conta? Em Curitiba, muitas pessoas, por convicção ou outra razão, optam por se locomover por meio da bicicleta, apesar da leniência da prefeitura, que mantém um insuficente circuito de supostas ciclovias (pela má qualidade do pavimento e a circulação compartilhada, é duvidoso chamá-las ciclovias) enquanto privilegia o trânsito motorizado.
A bicicleta é uma alternativa saudável e ecológica, mas que não recebe a devida atenção dos investimentos municipais em infra-estrutura. Muito mais barata que a construção de avenidas de kilômetros de extensão em concreto, a demarcação de ciclofaixas e a organização do trânsito em benefício da circulação de bicicletas é, no mínimo, uma obrigação legal. Previstas pelo Código de Trânsito Brasileiro, as ciclofaixas e ciclovias não devem ser vistas como ação opcional da prefeitura. São uma obrigação com o cidadão, que deve ter a oportunidade de optar pelo meio de transporte de sua preferência.
Mas soma-se à falta de espaços adequados para a circulação de bicicletas, as catracas da tarifa e problemas na qualidade do transporte coletivo e o trânsito cada vez mais travado na cidade. Não parece um exercício sobrenatural prever que Curitiba tende a parar.
É compreensível que parcela da população prefira o transporte motorizado, por critérios de praticidade, velocidade e até mesmo condições físicas daquele que precisa chegar ao local de trabalho com segurança e tranquilidade. Isso significa que a prefeitura deve investir em meios de transporte coletivos de boa qualidade, que possam contribuir para o bom funcionamento do trânsito encorajando as pessoas a deixarem seu automóvel em casa.
Além disso, uma tarifa acessível, até mesmo subsidiada, é um investimento justificável se o desejo for prevenir a poluição atmosférica e o estresse que o movimento da área central provoca. A atitude rigorosa de restringir a circulação de carros em um determinado perímetro não é um obstáculo, mas o desafio para outra cultura de mobilidade, que prioriza a cidade para as pessoas, em detrimento da cidade do carro (car city). Os custos e eventuais incômodos dessa política são bem menores que os infinitos gastos e endividamentos por infra-estrutura e a cidade-canteiro-de-obras.
Devemos dirigir atenção para os obstáculos à mobilidade por meio da bicicleta. Mesmo sendo comparativamente mais prática e rápida que outros meios de transporte, como pode ser demonstrato pelo desafio intermodal (Gazeta do Povo: Bicicleta supera até moto no trânsito de Curitiba. De novo. Publicado em 29/05/2008. http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=770677), os usuários da bicicleta ainda sofrem com os riscos e insegurança da circulação no trânsito da cidade. Apesar do Código de Trânsito prever uma “etiqueta” de comportamento nas vias públicas, a ocorrência de acidentes e desrespeito pelos motoristas desencoraja a utilização das bicicletas. Uma iniciativa consistente seria a reserva de espaços específicos para este modal, previstos pelo código na forma de ciclofaixas ou ciclovias.
Na falta das boas condições promovidas pela prefeitura, os ciclistas resolvem a circulação por sua própria conta. É como vejo a criativa iniciativa de demarcar a ciclofaixa em vias públicas, no local onde já deveria há muito estar demarcada (Gazeta do Povo: Ciclistas pintam ciclofaixa em rua de Curitiba e são multados. Publicada em 09/12/2008. http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=836083). A prefeitura, até então omissa no assunto, resolveu tomar uma iniciativa: lançou multa para os ciclistas acusando-os de pixação. Vandalismo?
Talvez a prefeitura considere vandalismo também a iniciativa de moradores de bairros de população de baixa renda que instalam a infra-estrutura básica por sua própria conta. Talvez seja comparável à pixação a iniciativa de cobrir os buracos que se abrem depois de cada chuvarada nas ruas mal-pavimentadas da nossa cidade. Quando a prefeitura falta aos seus compromissos, ela pode proibir que as pessoas façam o que ela deveria ter feito?
Me parece o oposto: no caso, penso que a prefeitura deve indenizar a tinta utilizada pelos ciclistas que demarcaram a ciclofaixa onde ela legalmente deveria estar. Deveríamos agradecer à iniciativa das pessoas que, conhecendo os problemas de perto, mostram ao prefeito que a sociedade é a dona da cidade. Que as soluções brotem espontaneamente, impunemente, pelas mãos de todos nós, sem precisar pedir autorização ou perdão a quem for, prefeito ou procurador. Pela retirada da multa contra os ciclistas, é urgente a demarcação de ciclofaixas, respeito e segurança para a circulação dos ciclistas.
Bruno Meirinho, advogado ciclista, foi candidato à prefeitura de Curitiba pela Frente de Esquerda (PSOL-PCB-PSTU) em 2008
Bruno. Concordo com algumas das coisas que você enumerou e comentou. Também acho importante que os ciclistas precisam de orientação e educação do trânsito. Eles, assim como condutores de diferentes veículos, usam e abusam das vantagens que a bicicleta lhes proporciona, assim como condutores de motocicletas, caminhões, ônibus etc. Observo isto de perto todos os dias pelas ruas de Curitiba como ciclista que sou. O respeito tem de ser mútuo.
Por: Julio Cesar Pereira em 4 Novembro, 2009
às 9:38 pm
Por que será que toda vez que se fala algo em favor daqueles que usam a bicicleta aparece gente para apontar o dedo para o nariz alheio e falar como eles são mal-educados, desrespeitadores, indisciplinados, irracionais?
Será mesmo que esse é o segmento populacional que mais precisa da educação no trânsito?
Será que eu sou um cego ao achar que quem tem a arma na mão precisa mais disciplina do que quem é muito mais vítima potencial?
Por: Peters em 4 Novembro, 2009
às 11:11 pm
Educação deve ser imposta, até que se torne um hábito. É o que acontece (ou deveria acontecer) em casa e nas políticas públicas. São raras as ocasiões em que o autruismo ocorre naturalmente em nossa espécie. O dito bom comportamento deve ser ensinado, e depois cobrado.
Não é justo cobrar educação de motoristas/ciclistas mal-educados. O próprio termo já diz muito: o cidadão é mal educado, ele não tem culpa (nem educação!). Não conhece as regras de trânsito, não conhece os impactos ambientais e sociais de seu “way of life”, não foi preparado para ter senso crítico, não tem instruções claras e visíveis (sinalização) que lhe diga ou lembre que as ruas (e as regras de trânsito) são tanto veículos motorizados quanto dos não motorizados. Além de tudo isso, não tem ninguém para cobrar essa educação. Você não vai ver a polícia repreendendo os motoristas que não respeitam o espaço mínimo para ultrapaçar bicicletas e pedestres. Você não vai ver a polícia repreendendo o ciclista que trafega na contra-mão ou em alta velocidade nas caçadas.
O buraco é MUITO embaixo. Começa pela educação e fiscalização. Passa por infra-estrutura e termina em coragem pública e política. A maioria de nossos políticos trabalham para o interesse explícito de seu eleitorado (seja pelo cara que vota ou pelo cara que financia sua campanha) pois vê esta como a única forma de se manter no poder (ou nos mais baixos escalões, se manter empregado). Esquecemos que na maioria das vezes nosso povo mal educado (não no sentido pejorativo da palavra, no sentido REAL) não sabe o que é bom para ele. Associa qualidade de vida com um carrão na garagem e cerveja barata nas horas vagas. Não entende o significado sistêmico de autruísmo, sociedade, respeito, sustentabilidade, etc.
Muito bom o texto do Bruno.
Por: Nicholas Arand em 5 Novembro, 2009
às 8:14 am
Dia 3, terça-feira, estivemos conversando com a autoridade municipal. Fomos com a tentativa de um grande pacto de convivência. A “bicicletada” apoiaria o plano “ciclável” que será proposto e será discutido pela PMC e esta assumiria que a multa ambiental imposta aos ativistas urbanos Goura Natarj e outros seria cancelada.
Impossível segundo a liderança municipal. Uma vez lavrada não se pode “deslavrar” e nem tão pouco perdoar… Só com um parecer jurídico em contrário que poderá ser feito.
Houve o pleito então de um ato público por parte dos cicloativistas para arrecadar fundos para fazer frente à multa, mas por fim será aceito.
Ficou pautado também o apoio dos cicloativistas e das universidades PUC e UFPR na formulação de uma proposta para atender com uma rede de vias cicláveis entre seus campus universitários a ser estudada em conjunto com o IPPUC.
A Sociedad Peatonal através de nossa pessoa, fez-se presente comentando a caminhabilidade como necessária para a equidade social e fizemos referencia à legislação atual como que incoerente pois sendo a calçada um ente público, deveria ser de responsabilidade construtiva da municipalidade, bem como sua manutenção.
Difícil e longe muito longe de ser colocado como uma preocupação a questão da mobilidade sustentável implica na necessidade de mudança do paradigma e não me parece que a atual gestão tenha sensibilidade para avançar neste sentido.
Por: Roberto Ghidini em 5 Novembro, 2009
às 9:02 am
Contra a má vontade não há argumento. Beto Richa e sua trupe estão mais interessados em não desgrudar da teta do poder, nem que para isso lancem mãos de argumentos falhos e chinfrins. Falta sim é vergonha na cara e vontade política, coisa que já está demonstrado que estes sujeitos que representam o poder público não têm. É deveras indignante.
Por: divo maia em 5 Novembro, 2009
às 11:37 am
Interessantíssimo artigo traduzido pelo Gabba: http://fixacwb.wordpress.com/2009/11/10/curitiba-e-seu-atraso-de-15-anos/
Por: Gunnar em 11 Novembro, 2009
às 1:19 pm
Mobilidade Urbana ? Capital Ecológica (segundo a ONU) ?
Nínguém aqui é nefelibata, ninguém projeta no uso da bicicleta a panacéia que resolverá os agudos problemas de mobilidade desta capital. Todavia, políticas públicas que estimulem seu uso haverão de ser muito bem vindas e profícuas, rumo à busca de soluções inteligentes e ecológica e politicamente corretas. Destarte, nossa atual administração municipal não é, nem inteligente nem sequer voltada às questões ecológicas; quiça agisse com probidade.
A ONU, num disparate sem par, classica Curitiba como sendo “Capital Ecológica”. Mas como ??? Única, das grandes capitais brasileiras cujo transporte coletivo se faz, exclusivamente com combustíveis fósseis (e dos mais poluentes, o diesel). Quem aqui duvida que isto não seja só mais uma grande (e bem paga) peça publicitária desta cidade que gasta mais com propaganda do que com salário de educadores ?
Não votei neste moço (Bruno Meirinho), embora seu partido político (PSOL) seja um dos últimos com um bom lastro de coerência e dignidade; mas não posso deixar de enaltecer o arrojo e visão de seus argumentos.
Muito mais que crítica, conclamo a todos os curitibanos que tomem uma atitude, que construam alternativas (pro transporte eu sugiro a BICICLETA) para nossos prementes problemas, pois da atual gestão municipal (Beto Richa e caterva) só podemos esperar o pior.
Por: George Massarnaduba em 23 Novembro, 2009
às 8:48 pm