Falarei em nome da bicicletada, embora não exista realmente uma unidade de pensamento – o que é justamente o grande trunfo do movimento – e, portanto, o que vai abaixo é apenas a opinião pessoal desse que vos escreve.
O que temos (desenho de Andy Singer)
Não reivindicamos o direito a ter um cantinho na cidade. A coisa é mais ampla que isso.
Nossa luta contra a ditadura do automóvel não é uma questão de gosto, do tipo “eu prefiro a bicicleta então vou falar mal do carro”. Nada disso. Reconhecemos que o carro, isolado, como veículo, tem lá sua utilidade.
O que nós estamos questionando é justamente a dimensão e a falsa importância que o automóvel ganhou nas cidades. A rua se tornou perigosa para as pessoas, principalmente crianças e idosos; o espaço urbano está degradado e abandonado, transformado em local de passagem; mais da metade do solo da cidade é ocupado por ruas e mais ruas, túneis, viadutos; toda a cidade é planejada para o carro, temos vagas ao longo das ruas, calçadas cada vez menores, praças sendo eliminadas, tudo para ceder espaço à minoria que possui um automóvel. E olha que legal: mesmo com essa concessão toda, ironicamente, o sistema não funciona: os congestionamentos são cada vez mais longos e demorados, e assim, a mobilidade – não só dos carros, mas de toda a população – vai para o brejo.
A pergunta que fica é: por que continuar insistindo num sistema que, além de destruir a cidade, servir apenas uma minoria e usurpar o espaço que é de todos, não funciona e já mostra claramente sinais de esgotamento? Grandes cidades do primeiro mundo já perceberam que uma das primeiras medidas para começar a resolver o problema do trânsito é restringir a circulação de automóveis, além de repensar completamente a cidade, priorizando o transporte público e humano.
Então:
A bicicletada reivindica o espaço que pertencia às pessoas e foi usurpado pelo automóvel.
A bicicletada reivindica o respeito pelas diferenças e pela vida humana.
A bicicletada reivindica o convívio pacífico e harmonioso no trânsito.
A bicicletada reivindica o resgate da mobilidade inteligente, rápida e democrática.
A bicicletada reivindica um planejamento urbano que priorize a mobilidade – e não o carro.
A bicicletada reivindica, enfim, uma cidade mais humana.
O que temos e o que queremos (desenho de Andy Singer)
Mesmo que seja doloroso para alguns, tudo isso só é possível com o fim da ditadura do automóvel.


Massa.
Por: lapeters em 4 Julho, 2008
às 4:24 pm
[...] Para ler mais: O que nós queremos, afinal? [...]
Por: O que é? (o post) « bicicletada curitiba em 2 Setembro, 2008
às 7:33 pm
Gostei deste texto, roubei para colocá-lo em meu blog também
Abs.
http://ciclistaurbanocwb.wordpress.com
Por: Ciclista Urbano em 18 Novembro, 2008
às 11:36 am
Quanto a ditadura do automóvel:
A bicicletada reivindica o espaço que pertencia às pessoas e foi usurpado pelo automóvel.
- O espaço continua pertencendo as pessoas, não esqueçam que quem dirije os automóveis são pessoas como os ciclistas. A falta de parcimônia do motorista se aplica tanto aos motoristas quanto aos ciclistas e motociclistas.
A bicicletada reivindica o respeito pelas diferenças e pela vida humana.
A bicicletada reivindica o convívio pacífico e harmonioso no trânsito.
- A educação no trânsito se aplica a todos os veículos, inclusive a bicicleta. Não é legal tacar sua bicicleta em frente a um onibus quando este está em sua trajetória correta.
A bicicletada reivindica o resgate da mobilidade inteligente, rápida e democrática.
A bicicletada reivindica um planejamento urbano que priorize a mobilidade – e não o carro.
- Fato. O planejamento urbano deveria ser revisto visando o transporte alternativo.
A bicicletada reivindica, enfim, uma cidade mais humana.
- A exemplo de algumas cidades asiáticas, a bicicleta pode gerar o caos, assim como os automóveis.
Bakunismos e utopias a parte, lembrem:
- A bicicleta é um meio de transporte saudável mas não vai salvar o mundo.
- Se a indústria automobilistica quebrar, todas as outras quebram tambem.
- O único e real problema é a falta de educação.
Por: Pedro em 1 Setembro, 2009
às 3:14 pm
“O espaço continua pertencendo as pessoas, não esqueçam que quem dirije os automóveis são pessoas como os ciclistas.”
Não se iluda. Apenas 30% das pessoas possuem um automóvel, então mesmo que essa afirmação fizesse sentido, o espaço que antes era democraticamente distribuido agora está destinado àqueles que possuem um automóvel. 70% do espaço urbano para 30% das pessoas.
Mas eu vou além. Quem dirige um carro é uma pessoa. Mas ela não VIVE o espaço pelo qual transita. A rua é um lugar morto. Um local de passagem. Onde antes de convivia, se jogava bola, se dava bom dia aos concidadãos – e isso tudo sem deixar de se locomover, também – hoje temos tapetões de asfalto, com 5 pistas ultra-rápidas, proibitivas para pedestres, ciclistas. Nem mesmo os motoristas de fato aproveitam esse espaço (que não é pouco). Apenas passam por lá, para ir do ponto A ao ponto B. O que tem no meio, um vale inóspito e perigoso chamado trânsito, que os motoristas procuram atravessar o mais rápido possível isolados dentro de suas bolhas.
“O único e real problema é a falta de educação.”
Falta de educação? Não. O principal problema é o automóvel. O motorista mais educado do mundo ainda estará ocupando um espaço desproporcional na rua, atrapalhando o trânsito (ou você acha que se todos fossem 100% educados, não teríamos engarrafamentos?), poluição, e com um potencial assassino do tamanho de duas toneladas de metal. Eu sou a prova. O cara que me atropelou era ótima pessoa. Um pouco de distração + insufilme fizeram com que cometesse um erro, que resultou em alguns ossos quebrados pra mim. Ele parou, ele assumiu a culpa, ele se desesperou. Era uma pessoa de bem. Mas estava armada, e, com uma arma desse tamanho, uma distração banal pode terminar em muito sangue.
“A bicicleta é um meio de transporte saudável mas não vai salvar o mundo.”
Ninguém está dizendo que vai salvar. Não estamos propondo a bicicleta como solução mundial. Mas para mim, pessoalmente, ela é uma solução, individual. Tudo que quero é que, na rua, não me matem por eu ter feito essa opção.
“Se a indústria automobilistica quebrar, todas as outras quebram tambem.”
Foi o mesmo argumento que sustentou o escravismo até o fim. Quem quer que falasse contra o escravismo negro, há alguns séculos atrás, não passava por libertário ou sonhador, e sim por analfabeto em economia mesmo, afinal, a economia das colônias e junto com elas a européia, tudo ruiria sem os escravos. Só paramos de escravizar negros quando se tornou economicamente inviável – era mais barato e produtivo contratar imigrantes.
A história devia nos ensinar a não repetir os mesmos erros…
Por: Gunnar em 2 Setembro, 2009
às 9:01 am