Publicado por: Peters | 25 Junho, 2008

Na FIEP, sustentabilidade só para empresário (não) ver

Um amigo que usa a bicicleta como meio de transporte em Curitiba – não como esporte, nem como lazer – passou na semana passada por uma situação vexaminosa em decorrência de sua opção. O local: a FIEP, Federação das Indústrias do Estado do Paraná. A ocasião – e aqui vem a grande ironia: um evento sobre sustentabilidade!

Desse evento resultaram recomendações voltadas para o tema. Segundo consta em notícia na página da entidade: “Curitiba gera 80 proposições para o avanço da sustentabilidade nos negócios”.

Usando o veículo mais sustentável dentre todos os existentes, a bicicleta, nosso amigo foi simplesmente proibido de usar a entrada principal da FIEP. Para ter acesso ao auditório, foi obrigado a subir um enorme aclive, fazer a volta toda e entrar pelos fundos. Para completar a humilhação, até encontrou um paraciclo, mas inadequado para a finalidade a que se destinaria. Consultada a entidade para apresentar alguma explicação ou justificativa para a proibição de bicicletas pela entrada principal, não houve nenhuma resposta.

Já especulamos sobre as possíveis razões para essa restrição contra os ciclistas, sem conseguir atinar com alguma explicação racionalmente satisfatória. Será que o ciclista em si não combina com as instalações e o status das pessoas que frequentam o local, ainda que eventualmente? Será que eles pensam que a bicicleta é veículo de pobre ou não honesto ? Que enfeia a paisagem? Se for isso é bom que os administradores do local se atualizem, pois é um pensamento completamente retrógrado, superado, fora de moda.

Em vista desse critério contra o usuário da bicicleta, cabe a pergunta: sustentabilidade é algo para ser discutido, mas não praticado? Sustentabilidade fica bem no marketing, mas não vale pra vida real?

Se a própria entidade que reúne o empresariado tem esse preconceito, pergunta-se: qual empresa vai acreditar que deve construir bicicletários e vestiários apropriados para o empregado usuário da bicicleta? Qual empresa vai acreditar que deve até gratificar quem usa a bicicleta, por enxergar essa opção como uma atitude conservacionista e sustentável? Qual empresa vai tentar influir o poder público a estimular e proteger o ciclista e desestimular o transporte individual privado?

As vaias vão também para a URBS, que trata discriminatoriamente na Rua da Cidadania da Matriz os cidadãos de bicicleta, impedindo-os de ter acesso a serviços que presta para os cidadãos motorizados em instalações públicas. Parece uma proibição derivada do mesmo preconceito absurdo e demodé.

Espera-se que algum dia essas entidades mudem de atitude. Enquanto isso, que fique público como agem efetivamente. Pois o vexame real é pretender falar de sustentabilidade e agir contrariamente a ela. Talvez nada conste, entre as 80 proposições, a respeito de transporte individual sustentável. Então, desde já, fica a proposição 81 da Bicicletada para o avanço da sustentabilidade nos negócios: tratar bem ao empregado que usa a bicicleta como seu meio de transporte. Tratar bem ao cliente que usa a bicicleta como seu meio de transporte.

Deixe seu comentário, especialmente se já tiver passado por situação parecida.


Respostas

  1. Ótimo relato, Peters. Péssimo exemplo da FIEP e seus pisos de granito.

    E dê-lhe punições pra quem optou por um mundo melhor para si e para os outros.

  2. Situação parecida na mesma FIEP. Workshop sobre Aquecimento Global e acabei deixando a bicicleta ao lado da guarita de entrada, orientado pelo segurança da portaria. Definitivamente eles não “enxergam” a bicicleta!

  3. Como acreditar que o evento gerará bons resultados com um péssimo exemplo deste?
    Todos são a favor da sustentabilidade, mas ninguém está disposto a repensar em suas próprias atitudes imapctantes.

  4. Empresários discutindo sustentabilidade? Bom como piada! Aqueles que pertencem a este órgão patronal não estão nenhum pouco preocupados com estes pensamentos verdes.
    Agora barrar a bicicleta deve ter um fundo de preconceito, afinal, bicicleta é coisa de pobre. Pelo menos neste país de m.

  5. Ótimo relato! Muito boas foram as suas observações. Realmente não será fácil a batalha para colocar as bicicletas como o meio de trasporte do futuro, o único que poderá atrasar significativamente a destruição de nosso ambiente. Porém eu acredito na prosperidade da bicicleta e daqueles iseriram ela no seu cotidiano.
    Bicicleta: A invenção do passado que vai salvar o futuro.

  6. [...] Sem querer desqualificar o encontro da próxima 2a. e 3a., no caso de algum leitor deste blog se dispor a comparecer e participar  (o que seria importante e recomendável, talvez), será que os inscritos usuários de bicicleta poderão estacionar em locais adequados ou terão que entrar pelos fundos? [...]


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